quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Suicídio Indolor

Perdoe-me. Perdão por ter-lhe deixado partir assim tão fugaz, sem nem se quer me importar em dizer-lhe adeus olhando bem a fundo seus tão belos e inquietantes olhos, não seria capaz de encará-los e notar a presença de urticárias lágrimas recém-derramadas e ter a invicta consciência de que a culpa desses olhos estarem tristes é minha. Não possuo coragem o suficiente para dizer-lhe que é certo e de fato necessário essa dolorosa partida, sinto-me um sanguinário desalmado por te deixar com minha ausência, mas se esta é a solução necessária para que o brilho de sua face perolada volte, é nítido que o farei.

A pior e mais latejante dor é partir, deixar a quem pertenço e subir o vale do desconhecido como a morte vaga a procura de uma alma, da minha alma. A cada passo uma pulsação agoniada, a convicção de saber que quanto mais caminho, mais a escuridão entre nós aumenta é como se eu estivesse fincando uma estaca em meu próprio peito, pois sei que essa mesma escuridão que tanto me mutila é mesma que te deixa mais livre do que não te pertence, ela significa sua amnésia de um tempo que não voltará. Minha presença será como um brilho eterno na sua mente sem lembrança.

Numa tentativa vã de conseguir um ultimo suspiro de vida você me deixou ir e não notou, mas eu sim. Percebi que era tempo de partir, de permitir que você se reencontrasse e parasse de suplicar por saudade, saudade de quem você foi um dia. Eu te roubei para mim num momento que você se permitiu sentir. Num instante inconsciente você parou de me esconder, deixou que eu fosse à tona e mostrasse quem você realmente era por traz dessa camuflagem de vários ‘’eus’’ sem rosto.

Porém, assim como num mero lapso inconsciente você assinou sua carta de alforria, num primeiro pulsar de dor você retomou sua consciência e me expulsou do seu corpo, da sua mente, da sua alma , da sua vida, me colocou no mais escuro abismo, junto com aqueles pensamentos incessantes que foram banidos do seu próprio ser. Eu sou outra face de você mesma, sou seu Eu mais profundo, aquele que ao pé do ouvido, sussurra: permita-se.

Gabriela Camargo

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