Um sussurro inquietante vaga, como uma alma perturbada, pelas ruas dessa
cidade fantasma. Ele caminha sem destino, é mais livre que um pássaro, suave
como um vento, não vemos, mas sentimos, ele está lá,vivo, só a espera de sua
próxima vítima.
Uma vez que a primeira cabecinha embalada por dúvidas permita o acalento
desse sussurro, esta estará perdida numa insônia amortecida pelos sonhos
involuntários. Esse sussurro chega como um hospede e sem permissão ultrapassa a
linha do aconchego, entra pela porta do seu refúgio, senta a beira da cama e
começa seu ofício.
Embargada por pensamentos clandestinos, que soam como um canto de
sereia, a descuidada cabecinha esquece-se desse ser rastejante em sua cama,
desfaz a única barreira entre eles,a sua própria negação. E como um imã o
sussurro deita ao seu lado aconchega-te junto ao peito e com um cafuné
angelical começa sua opressão desvirada.
As mais temíveis indagações são postas em debate. Inicia-se a luta do
consciente com o subconsciente, a tentativa em vão de sair daquele abraço
sufocado, falta-se o ar, o peito ofegante, o suor escorrendo,o frio
perturbador, os gritos calados, a mente perturbada, um vazio…
Um vazio que invade, acomoda aquela coisa, aquele ser, que quase sem
vida é levado como uma folha, arrastado pelos próprios pensamentos aos cantos
mais sombrios e incrivelmente inabitados daquela mente, que tenta com toda a
garra, com toda força subir, escalar aquele penhasco sem fim… em vão, toda
tentativa lúcida de não cair de novo naquele precipício. Sim, em vão, pois a
parte mais escura e empoeirada pelo esquecimento, vem a tona e novamente sufoca
a voz da alma.
Que tristeza, que lástima essa nostalgia vaga e sem nexo que insiste em
andar por esse labirinto e incendiar o mostro adormecido e trazer de volta a
superfície aquilo que foi tão duro, tão penoso, tão desgastante de deixar
partir, que traição desse sussurro fantasma, imperdoável!
Então volta, como uma avalanche, sem gradações, tudo aquilo que custou
todas as lágrimas do seu corpo, todas as preces feitas, volta, volta numa
partícula de tempo, que de tão pequena é incalculável, só não é desprezível
pela intensidade de vida que carrega consigo. Cada gota de suor gasta na
tentativa insana do esquecimento, traz junto de si crimes imperfeitos. E nós
nos traímos por todos os poros.
Depois do dano causado, o sussurro remexe-se cuidadosamente, para não
despertar aquela pobre alma adormecida em seu leito desajustado e encharcado
pelas próprias lágrimas secas. Num ato sutil,levanta, rasteja pela mesma porta
e sai, livre, anestesiado de qualquer sentimento, a procura de uma nova
cabecinha e sua alma de criança, que mesmo insegura não deixa de praticar sua
cinese.
Gabriela Camargo
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