quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Clandestino

Um sussurro inquietante vaga, como uma alma perturbada, pelas ruas dessa cidade fantasma. Ele caminha sem destino, é mais livre que um pássaro, suave como um vento, não vemos, mas sentimos, ele está lá,vivo, só a espera de sua próxima vítima.

Uma vez que a primeira cabecinha embalada por dúvidas permita o acalento desse sussurro, esta estará perdida numa insônia amortecida pelos sonhos involuntários. Esse sussurro chega como um hospede e sem permissão ultrapassa a linha do aconchego, entra pela porta do seu refúgio, senta a beira da cama e começa seu ofício.

Embargada por pensamentos clandestinos, que soam como um canto de sereia, a descuidada cabecinha esquece-se desse ser rastejante em sua cama, desfaz a única barreira entre eles,a sua própria negação. E como um imã o sussurro deita ao seu lado aconchega-te junto ao peito e com um cafuné angelical começa sua opressão desvirada.

As mais temíveis indagações são postas em debate. Inicia-se a luta do consciente com o subconsciente, a tentativa em vão de sair daquele abraço sufocado, falta-se o ar, o peito ofegante, o suor escorrendo,o frio perturbador, os gritos calados, a mente perturbada, um vazio…

Um vazio que invade, acomoda aquela coisa, aquele ser, que quase sem vida é levado como uma folha, arrastado pelos próprios pensamentos aos cantos mais sombrios e incrivelmente inabitados daquela mente, que tenta com toda a garra, com toda força subir, escalar aquele penhasco sem fim… em vão, toda tentativa lúcida de não cair de novo naquele precipício. Sim, em vão, pois a parte mais escura e empoeirada pelo esquecimento, vem a tona e novamente sufoca a voz da alma.

Que tristeza, que lástima essa nostalgia vaga e sem nexo que insiste em andar por esse labirinto e incendiar o mostro adormecido e trazer de volta a superfície aquilo que foi tão duro, tão penoso, tão desgastante de deixar partir, que traição desse sussurro fantasma, imperdoável!

Então volta, como uma avalanche, sem gradações, tudo aquilo que custou todas as lágrimas do seu corpo, todas as preces feitas, volta, volta numa partícula de tempo, que de tão pequena é incalculável, só não é desprezível pela intensidade de vida que carrega consigo. Cada gota de suor gasta na tentativa insana do esquecimento, traz junto de si crimes imperfeitos. E nós nos traímos por todos os poros.

Depois do dano causado, o sussurro remexe-se cuidadosamente, para não despertar aquela pobre alma adormecida em seu leito desajustado e encharcado pelas próprias lágrimas secas. Num ato sutil,levanta, rasteja pela mesma porta e sai, livre, anestesiado de qualquer sentimento, a procura de uma nova cabecinha e sua alma de criança, que mesmo insegura não deixa de praticar sua cinese.


Gabriela Camargo

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