quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Suicídio Indolor

Perdoe-me. Perdão por ter-lhe deixado partir assim tão fugaz, sem nem se quer me importar em dizer-lhe adeus olhando bem a fundo seus tão belos e inquietantes olhos, não seria capaz de encará-los e notar a presença de urticárias lágrimas recém-derramadas e ter a invicta consciência de que a culpa desses olhos estarem tristes é minha. Não possuo coragem o suficiente para dizer-lhe que é certo e de fato necessário essa dolorosa partida, sinto-me um sanguinário desalmado por te deixar com minha ausência, mas se esta é a solução necessária para que o brilho de sua face perolada volte, é nítido que o farei.

A pior e mais latejante dor é partir, deixar a quem pertenço e subir o vale do desconhecido como a morte vaga a procura de uma alma, da minha alma. A cada passo uma pulsação agoniada, a convicção de saber que quanto mais caminho, mais a escuridão entre nós aumenta é como se eu estivesse fincando uma estaca em meu próprio peito, pois sei que essa mesma escuridão que tanto me mutila é mesma que te deixa mais livre do que não te pertence, ela significa sua amnésia de um tempo que não voltará. Minha presença será como um brilho eterno na sua mente sem lembrança.

Numa tentativa vã de conseguir um ultimo suspiro de vida você me deixou ir e não notou, mas eu sim. Percebi que era tempo de partir, de permitir que você se reencontrasse e parasse de suplicar por saudade, saudade de quem você foi um dia. Eu te roubei para mim num momento que você se permitiu sentir. Num instante inconsciente você parou de me esconder, deixou que eu fosse à tona e mostrasse quem você realmente era por traz dessa camuflagem de vários ‘’eus’’ sem rosto.

Porém, assim como num mero lapso inconsciente você assinou sua carta de alforria, num primeiro pulsar de dor você retomou sua consciência e me expulsou do seu corpo, da sua mente, da sua alma , da sua vida, me colocou no mais escuro abismo, junto com aqueles pensamentos incessantes que foram banidos do seu próprio ser. Eu sou outra face de você mesma, sou seu Eu mais profundo, aquele que ao pé do ouvido, sussurra: permita-se.

Gabriela Camargo

Clandestino

Um sussurro inquietante vaga, como uma alma perturbada, pelas ruas dessa cidade fantasma. Ele caminha sem destino, é mais livre que um pássaro, suave como um vento, não vemos, mas sentimos, ele está lá,vivo, só a espera de sua próxima vítima.

Uma vez que a primeira cabecinha embalada por dúvidas permita o acalento desse sussurro, esta estará perdida numa insônia amortecida pelos sonhos involuntários. Esse sussurro chega como um hospede e sem permissão ultrapassa a linha do aconchego, entra pela porta do seu refúgio, senta a beira da cama e começa seu ofício.

Embargada por pensamentos clandestinos, que soam como um canto de sereia, a descuidada cabecinha esquece-se desse ser rastejante em sua cama, desfaz a única barreira entre eles,a sua própria negação. E como um imã o sussurro deita ao seu lado aconchega-te junto ao peito e com um cafuné angelical começa sua opressão desvirada.

As mais temíveis indagações são postas em debate. Inicia-se a luta do consciente com o subconsciente, a tentativa em vão de sair daquele abraço sufocado, falta-se o ar, o peito ofegante, o suor escorrendo,o frio perturbador, os gritos calados, a mente perturbada, um vazio…

Um vazio que invade, acomoda aquela coisa, aquele ser, que quase sem vida é levado como uma folha, arrastado pelos próprios pensamentos aos cantos mais sombrios e incrivelmente inabitados daquela mente, que tenta com toda a garra, com toda força subir, escalar aquele penhasco sem fim… em vão, toda tentativa lúcida de não cair de novo naquele precipício. Sim, em vão, pois a parte mais escura e empoeirada pelo esquecimento, vem a tona e novamente sufoca a voz da alma.

Que tristeza, que lástima essa nostalgia vaga e sem nexo que insiste em andar por esse labirinto e incendiar o mostro adormecido e trazer de volta a superfície aquilo que foi tão duro, tão penoso, tão desgastante de deixar partir, que traição desse sussurro fantasma, imperdoável!

Então volta, como uma avalanche, sem gradações, tudo aquilo que custou todas as lágrimas do seu corpo, todas as preces feitas, volta, volta numa partícula de tempo, que de tão pequena é incalculável, só não é desprezível pela intensidade de vida que carrega consigo. Cada gota de suor gasta na tentativa insana do esquecimento, traz junto de si crimes imperfeitos. E nós nos traímos por todos os poros.

Depois do dano causado, o sussurro remexe-se cuidadosamente, para não despertar aquela pobre alma adormecida em seu leito desajustado e encharcado pelas próprias lágrimas secas. Num ato sutil,levanta, rasteja pela mesma porta e sai, livre, anestesiado de qualquer sentimento, a procura de uma nova cabecinha e sua alma de criança, que mesmo insegura não deixa de praticar sua cinese.


Gabriela Camargo

Metamorfose

“Em um bosque de pedras, muito além dos muros,
Eu me reencontro, satisfaço toda inanição,
Abandono esse mundo vasto, maldição!

Mentalmente eu vivo novamente,
Chego a travessia desenfreante !
É hora de cruzar a ponte criança

No meio do caminho um tremor pulsante:
“É o coração que bate acelerado.”
Diz um sussurro constante.

O desfoque do destino da travessia
Enlouquece verdadeiramente o eu que se vai
A partida de uma das faces de um ser múltiplo!

Caminho duvidoso, bipolar!
Ora virtuoso, ora depressivo
Confusão agoniante de um caráter ainda não firmado!

Abandone suas vestes surradas, é preciso.
Uma de suas faces se vai
Mas, apesar de várias delas
Nunca deixamos de ser quem somos.

A essência é pura,
Imundo são as ideias inexatas de um lugar vazio.
Encontre-se em meio ao nada
E seja, e seja como és!

O guia é o vento
O vento leva o tempo
E o desconhecido de uma imagem turva,
Se resplandece radiante.
Seja como for, tudo é como tem que ser. ”

Gabriela Camargo

The Hunter


“Apesar da corrida do tempo, sinto-me parada, em ultima posição, enquanto este senhor passageiro já alcança o primeiro lugar do pódio. Meus sentimentos em nada mudaram, permanecem intactos e intocáveis, melodrama talvez, porém minha única fuga é vomitar em palavras.


Uma história paradoxa de um paciente estável para uma morte súbita, bizarra situação. Dias atras disseram-me que o tratamento estava reagindo positivamente, um alívio escapar de outra dor inevitável. Íamos bem, horas gastas em um universo alternativo, palavras realmente ditas por querer, sentimentos exalando.

Recebo a notícia, a tristeza faz de mim seu hospedeiro definitivo, minhas lágrimas secam, fico um deserto empoeirado. Nada adianta fazer, o lugar mais divertido é um sofá velho, nem a música que tanto me confortava eu queria saber.

Essa história não é real, foi uma metáfora para compreensão do que realmente aconteceu. Mesmo que o vento soprava a favor, o fato ocorrido nem contra não ia, foi tão inesperado que se houvesse uma direção possível, seria em outro plano, porque nesse não há explicação.

Vejo-me então perdida, não somente por ser quase um dogma minha descrença eterna de que sofrimento por nostalgias não são justificáveis, mas também pelo fato dessa reviravolta ingrata que arrebatou e exauriu todas minhas energias e vontades, levou como o vento leva uma folha a minha esperança de finalmente saber o que seriam todos aqueles sonhos utópicos de um conjunto de relações requisitadas por um ser pensante. 

Foi-se tão fácil, que nem meu suicídio seria tão indolor, engano meu pensar que estaria livre de todas lembranças. Sem ao menos esperar percebi que nada tinha ido, só acumulado e mistificado essa situação, que de tão insensata não há explicação. 

Se analisar como um observador imparcial, irá parecer puro masoquismo, pois os vestígios são tão reais e certeiros que é impossível pensar que nada existe, ou melhor, que não seja um mutualismo, são caprichos executados cuidadosamente que diferenciam os tipos de afinidades em um circulo de amizade. Porém se for analisada por um dos protagonistas, verá que essa história é de fato um mistério. 

Nada condiz, é como se o vento levasse para o norte e os pássaros fossem para sul. Ficar inconformado é a única alternativa sensata, afinal a esperança continua firme no andar do abismo, nem cogita a hipótese de saltar e meu sentimento fica recolhido em algum lugar de meu corpo, suspeito que estejam saindo pelos poros, pela falta de espaço dentro do meu peito. Nem me dei conta,fiquei a merce do tempo e na ignorância da sombra, lamentável.”

Gabriela Camargo

Pensamentos instáveis

"A inconstância da dúvida move a existência, embora a certeza seja mais saudável. Deixar o coração morrendo na inanição faz com que todos se questionem o porquê, mesmo o indivíduo de mais baixo nível intelectual se questionaria sobre um fato ocorrido opostamente a sua previsão, faz parte da essência de um ser natural querer saber o significado de tudo que contraria a sua ideia, induzida por ele mesmo.

Mas analisando o princípio lógico, deixando de lado o plano dos sentidos, a melhor forma de viver é pela busca infinita de um sonho, mesmo que este seja utópico, afinal a luta por algo que desejamos é incansavelmente percorrida todos os dias, com o objetivo de conseguir ganhar , ter, possuir ou até mesmo viver.

Então se essa busca não for perpétua, a emoção de caminhar por uma estrada sem rumo é inútil, pois quando conseguirmos chegar aonde queríamos, não veremos mais sentido em lutar por algo a mais e cairemos na comodidade de uma rotina entediante, afinal o desejo passará de abstrato para concreto, embora isso não significa que a real ânsia que foi conquistada , pode ser apenas um objeto de desejo enquanto teria que ser um objeto de necessidade.

O valor dado ao que se possui é infinitamente menor ao valor dado a que se deseja. A partir de momento que temos posse, deduzimos que aquilo nos pertence e que o risco de perda é inexistente, o contraste está exatamente nisso, pois tratamos o inalcançável como um sonho remoto, por mais que a esperança teima em desejar, sabemos que nunca será possível o toque.

Sendo assim, é melhor ter o que se quer ou viver desejando ?"

Gabriela Camargo

Atordoar-se

“Diga-me, para que ?
Para que essa agonia ?
Para que essa pressão ?
Padrão infeliz que nos leva a ruína!

Somos vítimas de tempo, um tempo corriqueiro.
Tempo maldito de forças indomáveis
Moldado pelo escrúpulo ditador !
Que censura a liberdade e mascara o desejo
Teoria de democracia perfeita, ação de um regime!

Uma lavagem cerebral precisa ser executada para assimilar..
Assimilar que:
Não há hora, não há tempo, não há limite!
As mais belas coisas não ocorrem no tempo certo,
Na realidade é,pois, que o tempo é certo que elas se sucedem.
E fim !

Não há o que ditar !
Entretanto, multidões movem-se pela traição de um padrão,
veja que imposição acéfala!

Revolta apenas naqueles que
Sabem pensar por si
e unicamente pelo próprio discernimento..
Infelizmente.

Diga-me: um bebê prematuro é totalmente saudável ?
Não !
Pois então para que apressar o nascimento
De um desejo inconsciente ?
Sendo que o mesmo não estará em perfeito estado ?

Antes a rebelar-se por algo futuro
a lamentar-se pelos vestígios falhos.
E que seja assim, por fim e sem fim
Não há pressa. ”

Gabriela Camargo

Liberté

A liberdade dos pássaros não consiste na presença de asas ou em saber voar, o que os fazem leves e soltos é a crença em si mesmo de que é possível. Da mesma forma que todos os seres são livres quando sentem-se dignos de asas, porém a liberdade dos terrestres é muito mais complexa quando articulada de maneira calculada e/ou sistemática, temos que aprender a crer que não há nada na mente que já não tenha passado pelos sentidos, que somos tão leves quanto uma pluma e tão soltos como uma brisa, basta sermos dignos de entender que nem tudo precisa de uma resposta lógica e concreta para fazer sentido, a verdadeira essência do nexo está em assimilar o sentido sem o ver, apenas sentir a existência das asas dentro de nós, somos tão livres quanto um pássaro numa gaiola, vemos o mundo por entre as grades e não através delas. (Gabriela Camargo)

Reinado


“Sabe o que é mais insensato? 
Perder a razão e continuar lúcido,
Querer e não haver meio de poder,
Ter nexo contraditório.

A linha traçada,
Não é a mesma percorrida.
O destino cruel, desvia o fluxo
E invade a mente perturbada 
Daqueles que vivem se perguntando:
Por que?

Ligar os pontos, essencial
Porém torturante.
Entregar-se ao nada
É incerto demais

Não sei lidar,
Não sei dizer: seja
Eu zelo pela certeza
Essa anarquia me devora
Me consome, me mutila!

Quero domar!
Sem selvageria.
O que escapa-me a compreensão
É o que causa a fuga.

A barreira do caus
Se ultrapassada…
Ah, se ultrapassada a barreira do caus…
Céus!

Uma desordem é lançada ao alto,
A guerra está feita,
As tropas em continência.
Os gritos.. sussurrados e desfeitos!

E eu…
Eu me afogo na culpa imposta,
Imposta pelo meu eu que diz:
Tu falhastes.”

Gabriela Camargo

Existência

“O que faz de você um mero ser?
O ser de apenas existir, outrora o concreto ser.
Se basta apenas caminhar na estrada contínua,
Para que serve os delírios inconstantes?

Ter consciência dos atos
Não significa premeditar todos os resultados.
O mérito é válido, qualquer que seja
Se alcançado é lindo!

Contudo só é válido
Só é válido se for seu
Seu intuito, sua alma, seu tudo,
Ou fim.

Vale mais um final próprio
Em contrapartida a uma glória alheia.
Vontade insana consciente,
A um mero desejo fugaz.

O que é seu te faz ser.
Pensamento emprestado é fraude.
Aonde há ideia, há um plano,
Seu.”

(Gabriela Camargo)

Grades e Asas

"Como pode?
Como pode tal atrocidade?
Tal ignorância num mesmo lugar?
Como ser tão invencível?
Se para isso temos que esconder quem somos,
Não soa correto, não soa!
Lutar, lutar para ser!
Como lutaremos para ser, 
Se quando somos, condenados ficamos?
Parece certo nos condenar por ser?
Por viver?
Se para ter tudo que temos
Sejamos obrigados a não sermos,
De que vale a nossa existência?
O ego escondido, não traz vitória.
Burocracia tola de uma hipocrisia barata!
Somos livres!
Livres!
Aprisionados numa sociedade incrédula.
Porém, livres!
Livres para amar, para julgar, para voar, livres.
A maior condenação está naquilo que não fazemos.
Apesar que condenados também somos se fazemos.
Paradoxo insano."

Gabriela camargo

Outra face de um mesmo nós

"Por traz do espelho:


Amor, não sinta-se mal se tudo que as palavras lhe fizeram acreditar escorregou por entre os dedos entrelaçados, se assim passou, não era ”amor”, amor. Confesso que melancolia em alto grau não é o forte, já nasci saturada de drama, o suficiente para um milênio, não permito-me mais contemplar mero capricho. 

Se andando juntos, vocês se desencontravam, vale mais a contrapartida e um encontro por esbarrão, cara-a-cara, pele com pele, olho com olho e…


E tudo que não existia, ou talvez sim, saia rolando no chão, feito pecinhas de quebra-cabeça desmontadas. Mas não se cobre, não se cobre amor, não é sua obrigação saber para aonde vai ou para onde foi, apenas dê um sorriso ou dois e mais meia palavra que já satisfaz tal esbarrão. 


E jamais, jamais se esqueça que esse encontro pode ser por uma noite ou por uma eternidade, o que vale é a proporção. Se a proporção de medo for a mesma de surpresa, curta, se a proporção de ansiedade for a mesma de coragem, curta, se a proporção de riso for a mesma de olhares, curta.

Só não caia em tentação e queira repetir o processo, as coisas sofrem metamorfose e só as findas é que ficarão. 


Se o processo se repetir, se, mas só se repetir, lembre-se, nada será igual, poderá ser melhor ou pior, mas nunca, jamais será igual, porque o que passou, passou, o tempo levou cada migalha consigo para sua vastidão e trouxe de volta outro eu de uma mesma pessoa, afinal, somos vários dentro de nós mesmo, somos tanto que nem nós próprios nos reconhecemos as vezes. 

Por isso fique grata pelo tempo trazer de volta um outro ”eu” e talvez, um outro ”nós”, de vocês mesmo. Que pode ou não esbarrarem-se continuamente, apenas curta." 

(Gabriela Camargo)

Entranhas

E quem ousaria dizer que tudo não passava de papel?

Quem ousaria saber que a mais leve brisa desmoronaria sua face?
Quem?



Há um paradoxo que habita nosso inconsciente e envolvido por nosso caráter camufla o nosso interior, ao ponto que nem mesmo as janelas da alma possam identificar tal fragilidade humana. Somos seres vulneráveis, oscilamos entre enumeras frequências, as quais exprimem, supostamente, nosso ''ser''.

Somos mais que um conjunto de tecidos vascularizados, praticamos várias outras atividades além de trocas gasosas, respirados muito além do nosso pulmão.

Ocupamos um papel na existência, um papel que exprime e envolve uma série de fatores morais, ilegais e verossímil. O conjunto de todas essas peculiaridades resulta em nosso Eu, ou melhor, em um dos nossos ''Eus''.

E pobres essências, sempre acabam surradas no fundo do abismo...
Cobrimos nossa face com uma máscara e damos vida a um personagem de nós mesmos, calculamos suas ações, seus pensamentos, seus sentimentos, tudo seguindo uma linha tênue imposta pelos limites, ditos sociais.
Que pensamento podre!

Vivemos dias miseráveis com pessoas que nem se quer são reais, um desperdício.
Por traz do retrato de beleza elfica, há uma alma em decomposição, esse sorriso tão envolvente, quando vistos pelos olhos da verdade, desfaz-se em desprezíveis cacos, e então toda a carcaça estimada como perfeita é levada pela mais sutil brisa, seus pedaços estilhaçados dançam com o vento em direção ao nada, com a mais calma morbidez... 

E no final volta-se à personalidade como a um término de linha, a única matéria restante é o nosso mais íntimo ser, aquele que ainda é criança, sem máscara, sem véu, sem nada.

Gabriela Camargo

CONHECIMENTO X ANÁLISE CRÍTICA: O MAL DA NOSSA ERA


Por Fernando Barscevicius


Vivemos a Era do Conhecimento. Informação irrestrita, a alguns cliques de distância. A internet nos deu acesso à informação de uma forma que nossos pais nunca poderiam imaginar. Com um pouco de boa vontade, aprendemos mais em 1 semana de pesquisa do que em 1 ano de escola. Aprendemos sobre qualquer assunto, acessamos diversos pontos de vista sobre o mesmo tema. Fazemos cursos gratuitos de universidades renomadas. Estudamos sobre o que quisermos, onde e quando quisermos.

É de se imaginar que tamanha revolução produza ótimos frutos, e que os níveis de inteligência e produção intelectual da nova geração sejam elevados de forma exponencial. Infelizmente, não é o que se vê. É cada vez mais comum vermos pessoas que se perdem em teorias da conspiração, que acreditam em bizarrices e as defendem com argumentos rasos, que duvidam de décadas de ciência por causa de um post em algum blog que cita algum “renomado” físico indiano. Inúmeros são os exemplos.

“Saber muito não lhe torna inteligente. A inteligência se traduz na forma como você recolhe, julga, maneja e, sobretudo, onde e como aplica esta informação.” – Carl Sagan

Isso ocorre porque o conhecimento é um dos ingredientes da inteligência, mas não o único. Temos acesso livre e imediato à informação, mas não temos acesso livre e imediato ao bom senso, à análise crítica, ao ceticismo, à reflexão. Ser habilitado ao exercício do raciocínio é algo que requer educação, prática e paciência. Assim, temos um exército de pessoas que sabem muito, mas pensam pouco; decoram tudo, mas não compreendem nada; acreditam demais, nunca questionam. Uma multidão que conhece um pouco de tudo, mas não é capaz de produzir nada novo e relevante daquilo que conhece.

Esse quadro só pode ser mudado através da educação. O sistema de ensino precisa abandonar o velho conceito de formar apenas replicadores de conteúdo, desses que são capazes de resolver cálculos complexos de ótica e electromagnetismo, mas não entendem onde eles se aplicam na natureza; que decoram datas e fatos históricos, mas não compreendem no que eles influenciam na atualidade. Parar de preparar os alunos para a Fuvest e começar a prepará-los para a vida, ao exercício pleno da racionalidade.

Sem isso, vamos conviver com uma legião de defensores de misticismo quântico, curas mágicas, envolvimento alienígena na política, profetas do fim do mundo. Até quando?

Os Polos

Somos compostos de extremos: o extremo do nada e o extremo do tudo. Embora o meio-termo seja mencionado algumas vezes, ele é apenas um disfarce para o que realmente há em questão. 

O nada invade nossas almas, ocupa nossas mentes de um vácuo tão profundo que sentimos a agonia da existência. Enquanto o tudo nos arrebata com picos de intensidade extremamente insana, quando felizes, e mórbida, quando tristes. O tudo não envolve apenas momentos de satisfação, pois se estamos dilacerados a sensação também é de ter tudo, seja toda a tristeza do mundo ou toda dor inimaginável.

Eis então a diferença primordial entre o tudo e o nada, se temos a dor logo temos algo, no entanto se não ansiamos possuir nem mesmo a dor, aí sim vazio preenche toda a nossa essência. E o que é melhor, ter dor (tudo) ou o vácuo (nada)?

Veja, o contraste estabelecido pela dor e pelo nada é perceptível a partir do instante que sentimos. Se a opção for ”sentir” a dor é incansavelmente melhor que o nada, porém se a escolha for o nada, seremos apenas amebas ambulantes.

Tanto uma existência instintivamente perturbadora quanto uma miserável terão o mesmo fim, porém a sutil diferença de ser e apenas existir é vão definir os seus extremos.

(Gabriela Camargo)

Recordações Embargadas


(Para o dia que eu esquecer de fazer as malas.)


E eu lembro. Naquela noite intumescida de prazeres, nossos abraços se fundiram com o relento, nossos passos dançavam com o vento e seu cabelo negro me embriagava. 



Ainda sinto sua barba mal feita roçar o meu rosto, minhas mãos ainda trêmulas subiram a estreita lacuna entre nossa idêntica palidez. Eu sinto sua pele. Vejo seus olhos fixos nos meus, simultaneamente suas mãos, frias, acariciavam minhas costas. Minhas pernas falsearam instantaneamente, meu estômago envolveu-se num arrepio gélido.

Quero sentir sua ausência mesmo em sua presença. Tenho sã consciência que essa eternidade de sensações e recordações não são recíprocas, prefiro a dor ao nada, afinal qualquer sinal já é um bom presságio. É, eu passaria a vida naquele bar.

Você pode até encostar sua face em outra face, entrelaçar seus dedos em outros dedos, beijar outros lábios, pois sei que, apesar de tudo, eu te colhi, como o dia engole o orvalho amanhecido de uma noite serena. Eu te possui, por um breve instante, mas possui. Sei também que quem permitiu sua partida fui eu.

Como pássaros, sou livre, não consigo viver presa na alfândega, não consigo pertencer ou me adaptar, eu sou de começo e fim, não de durante. Não posso viver com a responsabilidade de ter que voltar, sou de partida, nunca de chegada. Meus desencontros são propositais. Tenho náusea só de premeditar qualquer envolvimento. Não sou mais do que uma mera alma sem rumo.

Continuo minha viagem pela vida, sem destino e sem ninguém para ferir, me apegar ou despedir, não posso ter esse trabalho e nem ser bagagem de alguém. Minha solidão alimenta meus dias e minha estadia nesses hotéis baratos de beira de estrada.

Posso até procrastinar em demasia, mas minhas recordações permanecerão nostálgicas. Eu lembrarei daquele dia.

Gabriela Camargo

Anestesia




(E essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.)



Apaguei. Instantaneamente, enquanto aquela agulha perfurava minha carne. Veio então aquela sensação, de que nada mais atrapalharia minha plenitude. Nada! Nem o pensamento mais sórdido seria capaz de arruinar meu estado de espírito, sem espirito. Naquele momento de profunda solidez, senti que estava tudo encerrado, o que eu vivi simplesmente passou e o que eu deixei a desejar se fundiu junta e momentaneamente com minha morte. Temporária.

A duração daquele momento de embriagues fajuta não menospreza sua importância, afinal seja a morte por toda eternidade ou por aquele mísero segundo, o vácuo que abastece a mente é o mesmo. Sem dúvidas existenciais ou medos impróprios, ali, naquele momento de plenitude.

Acordei. E sem desejar, fui invadida por todo arsenal que me habitava. E você não sabe como é ser torturado pela própria mente. A dor é latejante, aguda e extrema. Pode não ser tristeza, aliás quase nunca é, pois antes que algo chegue a virar agonia, premedito em demasia a possibilidade de dar certo. E Eis o medo: ”dar certo”.

Viver é como a própria palavra já expressa, duas sílabas, que faladas soam incrivelmente rápido. É ligeiro. E o medo de dar certo, de conseguir viver algo, já me perturba. O problema não é o sofrimento e sim ter felicidade. Não posso me permitir isso, me apegar, me entregar, envolver outras pessoas nisso, pessoas que certamente me importam e que eu sinceramente vou ferir. Não intencionalmente, não! Mas minha instabilidade atrai solidão.

Por mais mórbido que seja, minha cura seria sofrer de uma doença terminal. A morte chegaria de qualquer maneira, tendo ou não uma doença, mas a diferença está no prazo.

Se eu soubesse que meus dias estavam contados eu iria fazer as mais insanas loucuras, dizer as palavras mais imbecis a pessoas mais imbecis ainda. Eu iria vi-ver. Minha linha estaria próxima de ser cortada e eu não gostaria de adormecer com a dúvida do ” E se?".

Porém minha realidade é tomada pelo prazo de vida desconhecido, que resulta numa procrastinação vergonhosa de tudo e qualquer coisa que dependa das minhas decisões. Isso me mutila, consegue encontrar a carne mais pobre que foi posta aos pássaros da morte. Fico presa a uma inanição crônica, de desejos ardentes platônicos e momentos ilusórios que só foram vividos por mim, no meu quarto escuro.

E assim o tempo passa, e por mais cabelos brancos que eu tenha a minha bagagem de vida pode ser comparada a de um feto que nem se quer saiu do útero.

(Gabriela Camargo)

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sala de Espera

Era de manhã. Entrei no consultório e entreguei meus exames a recepcionista e ela prontamente perguntou se eu estava lá para o retorno com o cardiologista, confirmei e fui procurar um lugar para sentar.
Naquela sala, fresca, haviam umas senhoras (do tipo que leem a bula de um remédio incansáveis vezes para ter certeza que não há nenhum efeito colateral que cause morte) e também uma mulher, mais nova que aquelas pacientes hipocondríacas do outro lado do assento, e seu filho. Lindo! Olhos pequenos, bochechas rosadas e tentadoramente fofas.
Sentei num canto qualquer e como de costume, involuntariamente peguei o melhor assento daquela empolgante sala. Dali, eu observava cada movimento, até o voo de uma mosca miserável, que certamente não poderia estar mais resignada por ter entrado num lugar tão apático. Em compensação, eu seria vista somente se alguém retorcesse o pescoço, o que obviamente não ocorreria.
Ouvi conversas fáticas, comentários maldosos, críticas ao próximo capítulo da novela das oito, mas além disso, ouvi uma vozinha estridente vindo do balcão da recepcionista. Era aquele menino, com tamanho desprezível, que estava tentando enxergar a mulher atrás do vidro. Esticou-se até não poder mais e mesmo estando nas pontas dos dedos do pés, não conseguiu sequer ver se a moça que o fazia esperar tanto, era ruiva, morena, velha ou louca.
Sem perceber que todos os olhos daquele consultório prestavam atenção na sua súbita fala com a recepcionista, o pequeno indagou se sua espera ainda seria de uma quimera. Logo que virou, deu de cara com todos aqueles olhos enrugados (com a expressão daquelas tias nós só encontramos no natal) direcionados a ele. O pobre anãozinho encabulou-se, correu feito uma lebre e enterrou a cabecinha no colo da mãe.
Tínhamos algo em comum, todos nós, naquele momento éramos vítimas da espera. E não possuíamos outra opção a não ser ficarmos condenados pela paciência por saberá quanto tempo. Mas, como exigir daquela minúscula criatura isso?
Se nem nós, com calos de espera e doses intermináveis de paciência, gostamos de ficar na inanição de uma chegada, como fazer aqueles noventa centímetros ficarem quietos e comportados num lugar entediante como aquele? Não há santo que faça isso, nem testemunhas de Jeová!
Nesses meu cinco minutos de devaneio, que mais assemelhou-se a uma eternidade de frustrações, a condenada criança já tinha enchido e enfiado goela abaixo uns trezentos copos de água e mais alguns pirulitos, que em vão foram dados pela mãe com a tentativa de conseguir o mínimo de sossego da cria.
Aqueles olhinhos pequenos desafiavam a mãe a cada ordem desobedecida, A sensação de vencer alguém mais forte que nós é tentadora, exatamente por isso, após ouvir um ”levanta do chão garoto!”, a mísera criatura esperou (mais uma vez) a mãe distrair-se com a revista e retomar sua leitura, para se esparramar no chão novamente, como sinônimo de prêmio por sua desobediência.
Mas, convenhamos, quem está errado? Nós por automaticamente aceitar os calos da espera ou essa criatura, que não se vê obrigado a nada, preocupado com nada e mesmo assim é condenado e sentenciado a ter paciência e esperar pelos outros para alcançar sua vez?
Minha espera cessou, entrei para a consulta cardiológica. Diagnóstico impecável, tudo na mais perfeita sintonia, sem remédios, tratamento ou alterações. Mas meu coração, ou miocárdio, continua que aquelas sutis arritmias, que nada mais fazem, a não ser deixar minha boca seca, minha cara roxa, quando acordo de madrugada de supetão. Deve ser efeito colateral de algum calo por ai.
Caminhando em direção a saída, vi que a pobre vítima de noventa centímetros sentenciada, não estava mais na sala ou senzala da paciência. Haviam outros rostos, outras inquietações, porém a mesma espera.
(Um conto de merda)
Gabriela Camargo