sábado, 23 de novembro de 2013

A Hora do Adeus

Estou convicta que quando eu evaporar será truque do meu egoísmo. Não direi hora, nem data, nem ano, mas quando eu for, não direi adeus e não medirei esforços para me manter o mais longe possível. Serei um fantasma na sua vida agora desfeita ou, finalmente, refeita.
Enquanto você estava de corpo e alma plantado no meu portão, eu estava de corpo e solidão. Sua saudade alimenta seus dias sombrios, já minha volatilidade devora minha vida.
É involuntário, entende? Essa ânsia de liberdade presa no meu corpo. Sou livre para ir e vir, mas quero também ser livre para não ter que voltar. Posso estar na República Checa, vivendo sobre os escombros do mau tempo, mas se eu estiver livre de alma, será indiferente. Do contrário, eu poderia estar no Palácio do Príncipe de Mônaco, mas se eu tiver um motivo sequer para querer trocar meu travesseiro de pena por uma conversa na calçada, saberei que meu caso é grave e o próximo passo é a guilhotina.
Por isso não direi adeus. A memória, mesmo que branda, de tudo que me levou a ter que partir já é bagagem alfandegária para mil reencarnações. Então, como suportarei carregar na lembrança a sensação das suas mãos no meu rosto frio? Como suportarei partir sabendo que seus olhos acompanharam minha fuga até minha penumbra desaparecer na imensidão? Como esquecerei o arrepio dos seus beijos no meu pescoço pálido? Ou do seu pedido estranho de beijar meu umbigo? Sou egoísta demais para não querer passar por isso. Mas não o suficiente para te condenar ao meu tormento.
Naquela noite nublada, que você me arrastou para a chuva na calçada, eu soube. Sua inquietude aquele dia foi crucial para que eu sentisse a hora da minha partida. Evitei, a todo instante, minha agonia, mas estava demasiadamente explícito o que suas inúmeras falas balbuciadas te levaria a fazer. Antes que eu terminasse a noite em coma, fingi não entender e te distrai com a minha língua na sua garganta.
Logo pela manhã, recolhi meus pedaços e o resto do quebra-cabeça que recuso a montar. Enfiei tudo numa mala velha e parti. Rumo a qualquer bar imundo cheio de almas vazias, aonde a ganância vibra e a vaidade excita. ”Me dê um gole de vida”, foi o que eu disse a primeira dose e atravessou minha garganta goela a baixo.

(Gabriela Camargo)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Reconciliação do Silêncio

     
        
 Sofremos de amnésia seletiva e, como todo lapso, falhas são cometidas e não podem mais ser ignoradas, uma vez que produz sintomas sociais gravíssimos, a começar pela repetição patológica de erros e crimes do passado.
       
A comissão da verdade nada mais tem a oferecer senão a clareza diante de fatos históricos que ficaram a mercê do tempo. A memória fresca sobre esses erros e informações omitidas privam a sociedade de um concreto julgamento e do direito de saber verdades, mesmo as mais nefastas, capazes de desestabilizar o poder. Exatamente por isso foi decretado o silêncio.
      
Porém a própria sociedade não está inocente, pois esta não se manifestou quando deveria, deixou o Primeiro Ato Institucional passar impune e só quatro anos mais tarde ela rebelou-se contra o AI-5 e iniciou a reação que deu início a redemocratização e, logicamente, ao fim do regime militar.
        
A questão em pauta agora é se os torturados do regime de 1964 devem ter ou não o direito da anistia que foi negociada entre opressores e oprimidos.
          
A razão final para as investigações e possíveis punições seria a condenação de todos os movimentos que atentam contra os direitos humanos. Uma advertência radical para que tamanhas barbáries não mais se repitam. Acontece que o ''castigo'' possui destinatários divergentes, pois não se trata somente de punir os torturadores da época, já que todos os criminosos, de agora ou de outros regimes de censura, alegam que cumpriram ordens. O trabalho da Comissão da Verdade está pecando pela horizontalidade das culpas, quando o importante é mostrar para a história a verticalidade dos fatos.
     
A verdade social é um processo e não um ponto de chegada, temos que saber a importância do Estado Democrático. A Comissão tem que mostrar a contribuição que o conhecimento sobre os crimes oferece para que o sentido de impunidade não se perpetue.

   (Gabriela Camargo) 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Conjuga-me

eu durmo
eu dormi
eu dormia
eu dormira
eu dormirei
eu dormiria
que eu durma
se eu dormisse
quando eu dormir
dorme tu
não durmas tu
para dormir eu

(Rita)

Ilíaca

Nas veias da cabeça
Nas veias dos meus ossos
Na pele do joelho
Nas veias do cabelo
Nos ossos do cabelo
Drenando o cerebelo
Parindo da minha tíbia
Do fóssil que sou hoje
Mais podre que as múmias
Fuçando o fóssil ínfimo
Quebrando a crosta-creme
Nas veias da cabeça
Na ilíaca da minha alma
Partiu meu coração
Às vezes vem a calma
Mas dura três segundos
O resto da minha vida
Com a fratura exposta
Sendo fóssil já novo
Tal qual um podre ovo.


Valéria Dusaki

domingo, 3 de novembro de 2013

Velório

(Eu não quero acordar na sarjeta e mendigar minha comida ao primeiro rosto vazio que cruzar a minha frente.)
Foi em uma sexta-feira miserável que minha sentença foi instaurada. Naquela noite, que até então não passava de mais um dia ordinário, senti minha vida escapar pelas minhas entranhas, vi o que jamais sonhei ver, senti o que sempre matei antes de florescer.
Perdi o controle dos meus atos, que embora eram sempre tortos e deformados, nunca deixaram de ser estritamente meticulosos. Mas naquela noite… naquela noite fui traída pela impulsividade, se bem que uma trela de sanidade me assombrava, porém por algum motivo desconhecido, eu banquei de surda e me permiti.
Saltei em direção a imensidão. Que imensidão? Era só um quarto cheio de estranhos com algumas alucinações, mas vá por mim, a imensidão está escondida nas emoções que não vemos. Quer coisa mais ingrata que não ter controle dos seus próprio atos? Que abraçar seus instintos como única forma de respiração? Não há, meu caro, não há.
Se eu fosse dotada de poderes psíquicos, sairia dali, retornaria ao meu mundo estranho, com o meu controle e minha sanidade. Mas, somos pobres almas humanas em corpos alugados. Então tolerei e esperei até que minha alforria desse sinal de vida.
A caminho de casa, meus tremores deram lugar a um questionário absurdo que eu teria que responder e pior, revelar. Eu Não estava sozinha, pois é, eu não estava acompanhada somente pelos meus fantasmas. Uma outra alma condenada me fez companhia naquela noite e o mais louco? Não foi a primeira vez que notei que eu não voltava sozinha para casa.
Alguém gostava da minha companhia e eu gostava da companhia desse alguém. Fui traída pelos meus próprios poros. Eu não estava mais naquele quarto turvo, estava agora na rua, na sarjeta de casa, olhando para um rosto estranho que via a inquietação através dos meus olhos.
Sorria e perguntava se estava tudo bem, com aquele ar de pergunta retórica, pois é claro que eu estava a ponto de explodir. Mas a esperança é a ultima que morre (ou se mata), então não custa ansiar pelo melhor. Só ansiar, pois estava esculpido e escarrado na minha cara que eu estava prestes a vomitar palavras sem sentido e inquietações ridículas!
Falei, falei por horas minha indignação diante do ocorrido. E o que eu ouvi como resposta foram incansáveis desculpas e o reconhecimento do ato impulsivo de outrem. E uma outra coisa, que fez a minha sexta-feira se tornar miserável e não tão ordinária como tantas outras.
Ouvi a preocupação de um indivíduo tão perturbado quanto eu (nem tanto). Tão estagnado de emoção quanto a mim (hipérbole). Fui abordada por uma confissão que me colocava como sujeito paciente. Eu, que em tantas outras vezes não passava de um adjunto adnominal, fui acusada de preocupação de alguém, fui sentenciada a ser o motivo por alguém ficar inquieto, eu fui o motivo dele estar ali. É clichê demais para uma noite só.
Quer prisão perpétua pior que ser algo para alguém? Afinal quando laços são criados, ficamos vulneráveis a todo tipo de doença, ficamos responsáveis pelo bem estar de alguém. É bagagem demais para um mísero corpo alugado carregar. Não posso ficar presa na alfândega, preciso ter liberdade de ir e vir, sem a obrigação de parar no meio do caminho. Eu sou de partida e não de chegada (eu era).
Diante de tamanha avalanche de sensações, o máximo que eu podia fazer era digerir tudo que vivi aquela noite, que se eu pudesse calcular a duração, arriscaria dizer que tudo aquilo que evitei sentir durante toda a minha existência, senti naquelas quatro horas de sexta-feira a noite.
Sem contar que enquanto escrevo essas palavras confusas não tiro da cabeça a sensação dos seus dedos passando no meu rosto e sua fala clichê, dita sussurrada olhando nos meus olhos: “Faça o que fizer, só fique comigo.”
Naquela noite miserável, percebi que se eu não fugir de toda essa insanidade, vou acabar largada, suja, abandonada por mim mesma, em qualquer calçada, mendigando por comida ao primeiro rosto que ver. Pois esses sentimentos, ditos humanos, vão acabar matando minha lucidez e eu vou me desintegrar, até que não reste mais vestígios do que eu fui um dia.
Gabriela Camargo