Estou convicta que quando eu evaporar será truque do meu egoísmo. Não direi hora, nem data, nem ano, mas quando eu for, não direi adeus e não medirei esforços para me manter o mais longe possível. Serei um fantasma na sua vida agora desfeita ou, finalmente, refeita.
Enquanto você estava de corpo e alma plantado no meu portão, eu estava de corpo e solidão. Sua saudade alimenta seus dias sombrios, já minha volatilidade devora minha vida.
É involuntário, entende? Essa ânsia de liberdade presa no meu corpo. Sou livre para ir e vir, mas quero também ser livre para não ter que voltar. Posso estar na República Checa, vivendo sobre os escombros do mau tempo, mas se eu estiver livre de alma, será indiferente. Do contrário, eu poderia estar no Palácio do Príncipe de Mônaco, mas se eu tiver um motivo sequer para querer trocar meu travesseiro de pena por uma conversa na calçada, saberei que meu caso é grave e o próximo passo é a guilhotina.
Por isso não direi adeus. A memória, mesmo que branda, de tudo que me levou a ter que partir já é bagagem alfandegária para mil reencarnações. Então, como suportarei carregar na lembrança a sensação das suas mãos no meu rosto frio? Como suportarei partir sabendo que seus olhos acompanharam minha fuga até minha penumbra desaparecer na imensidão? Como esquecerei o arrepio dos seus beijos no meu pescoço pálido? Ou do seu pedido estranho de beijar meu umbigo? Sou egoísta demais para não querer passar por isso. Mas não o suficiente para te condenar ao meu tormento.
Naquela noite nublada, que você me arrastou para a chuva na calçada, eu soube. Sua inquietude aquele dia foi crucial para que eu sentisse a hora da minha partida. Evitei, a todo instante, minha agonia, mas estava demasiadamente explícito o que suas inúmeras falas balbuciadas te levaria a fazer. Antes que eu terminasse a noite em coma, fingi não entender e te distrai com a minha língua na sua garganta.
Logo pela manhã, recolhi meus pedaços e o resto do quebra-cabeça que recuso a montar. Enfiei tudo numa mala velha e parti. Rumo a qualquer bar imundo cheio de almas vazias, aonde a ganância vibra e a vaidade excita. ”Me dê um gole de vida”, foi o que eu disse a primeira dose e atravessou minha garganta goela a baixo.
(Gabriela Camargo)
