quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Reconciliação do Silêncio

     
        
 Sofremos de amnésia seletiva e, como todo lapso, falhas são cometidas e não podem mais ser ignoradas, uma vez que produz sintomas sociais gravíssimos, a começar pela repetição patológica de erros e crimes do passado.
       
A comissão da verdade nada mais tem a oferecer senão a clareza diante de fatos históricos que ficaram a mercê do tempo. A memória fresca sobre esses erros e informações omitidas privam a sociedade de um concreto julgamento e do direito de saber verdades, mesmo as mais nefastas, capazes de desestabilizar o poder. Exatamente por isso foi decretado o silêncio.
      
Porém a própria sociedade não está inocente, pois esta não se manifestou quando deveria, deixou o Primeiro Ato Institucional passar impune e só quatro anos mais tarde ela rebelou-se contra o AI-5 e iniciou a reação que deu início a redemocratização e, logicamente, ao fim do regime militar.
        
A questão em pauta agora é se os torturados do regime de 1964 devem ter ou não o direito da anistia que foi negociada entre opressores e oprimidos.
          
A razão final para as investigações e possíveis punições seria a condenação de todos os movimentos que atentam contra os direitos humanos. Uma advertência radical para que tamanhas barbáries não mais se repitam. Acontece que o ''castigo'' possui destinatários divergentes, pois não se trata somente de punir os torturadores da época, já que todos os criminosos, de agora ou de outros regimes de censura, alegam que cumpriram ordens. O trabalho da Comissão da Verdade está pecando pela horizontalidade das culpas, quando o importante é mostrar para a história a verticalidade dos fatos.
     
A verdade social é um processo e não um ponto de chegada, temos que saber a importância do Estado Democrático. A Comissão tem que mostrar a contribuição que o conhecimento sobre os crimes oferece para que o sentido de impunidade não se perpetue.

   (Gabriela Camargo) 

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