Era de manhã. Entrei no consultório e entreguei meus exames a recepcionista e ela prontamente perguntou se eu estava lá para o retorno com o cardiologista, confirmei e fui procurar um lugar para sentar.
Naquela sala, fresca, haviam umas senhoras (do tipo que leem a bula de um remédio incansáveis vezes para ter certeza que não há nenhum efeito colateral que cause morte) e também uma mulher, mais nova que aquelas pacientes hipocondríacas do outro lado do assento, e seu filho. Lindo! Olhos pequenos, bochechas rosadas e tentadoramente fofas.
Sentei num canto qualquer e como de costume, involuntariamente peguei o melhor assento daquela empolgante sala. Dali, eu observava cada movimento, até o voo de uma mosca miserável, que certamente não poderia estar mais resignada por ter entrado num lugar tão apático. Em compensação, eu seria vista somente se alguém retorcesse o pescoço, o que obviamente não ocorreria.
Ouvi conversas fáticas, comentários maldosos, críticas ao próximo capítulo da novela das oito, mas além disso, ouvi uma vozinha estridente vindo do balcão da recepcionista. Era aquele menino, com tamanho desprezível, que estava tentando enxergar a mulher atrás do vidro. Esticou-se até não poder mais e mesmo estando nas pontas dos dedos do pés, não conseguiu sequer ver se a moça que o fazia esperar tanto, era ruiva, morena, velha ou louca.
Sem perceber que todos os olhos daquele consultório prestavam atenção na sua súbita fala com a recepcionista, o pequeno indagou se sua espera ainda seria de uma quimera. Logo que virou, deu de cara com todos aqueles olhos enrugados (com a expressão daquelas tias nós só encontramos no natal) direcionados a ele. O pobre anãozinho encabulou-se, correu feito uma lebre e enterrou a cabecinha no colo da mãe.
Tínhamos algo em comum, todos nós, naquele momento éramos vítimas da espera. E não possuíamos outra opção a não ser ficarmos condenados pela paciência por saberá quanto tempo. Mas, como exigir daquela minúscula criatura isso?
Se nem nós, com calos de espera e doses intermináveis de paciência, gostamos de ficar na inanição de uma chegada, como fazer aqueles noventa centímetros ficarem quietos e comportados num lugar entediante como aquele? Não há santo que faça isso, nem testemunhas de Jeová!
Nesses meu cinco minutos de devaneio, que mais assemelhou-se a uma eternidade de frustrações, a condenada criança já tinha enchido e enfiado goela abaixo uns trezentos copos de água e mais alguns pirulitos, que em vão foram dados pela mãe com a tentativa de conseguir o mínimo de sossego da cria.
Aqueles olhinhos pequenos desafiavam a mãe a cada ordem desobedecida, A sensação de vencer alguém mais forte que nós é tentadora, exatamente por isso, após ouvir um ”levanta do chão garoto!”, a mísera criatura esperou (mais uma vez) a mãe distrair-se com a revista e retomar sua leitura, para se esparramar no chão novamente, como sinônimo de prêmio por sua desobediência.
Mas, convenhamos, quem está errado? Nós por automaticamente aceitar os calos da espera ou essa criatura, que não se vê obrigado a nada, preocupado com nada e mesmo assim é condenado e sentenciado a ter paciência e esperar pelos outros para alcançar sua vez?
Minha espera cessou, entrei para a consulta cardiológica. Diagnóstico impecável, tudo na mais perfeita sintonia, sem remédios, tratamento ou alterações. Mas meu coração, ou miocárdio, continua que aquelas sutis arritmias, que nada mais fazem, a não ser deixar minha boca seca, minha cara roxa, quando acordo de madrugada de supetão. Deve ser efeito colateral de algum calo por ai.
Caminhando em direção a saída, vi que a pobre vítima de noventa centímetros sentenciada, não estava mais na sala ou senzala da paciência. Haviam outros rostos, outras inquietações, porém a mesma espera.
(Um conto de merda)
Gabriela Camargo
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