(E essas palavras que escrevo me protegem da completa loucura.)
Apaguei. Instantaneamente, enquanto aquela agulha perfurava minha carne. Veio então aquela sensação, de que nada mais atrapalharia minha plenitude. Nada! Nem o pensamento mais sórdido seria capaz de arruinar meu estado de espírito, sem espirito. Naquele momento de profunda solidez, senti que estava tudo encerrado, o que eu vivi simplesmente passou e o que eu deixei a desejar se fundiu junta e momentaneamente com minha morte. Temporária.
A duração daquele momento de embriagues fajuta não menospreza sua importância, afinal seja a morte por toda eternidade ou por aquele mísero segundo, o vácuo que abastece a mente é o mesmo. Sem dúvidas existenciais ou medos impróprios, ali, naquele momento de plenitude.
Acordei. E sem desejar, fui invadida por todo arsenal que me habitava. E você não sabe como é ser torturado pela própria mente. A dor é latejante, aguda e extrema. Pode não ser tristeza, aliás quase nunca é, pois antes que algo chegue a virar agonia, premedito em demasia a possibilidade de dar certo. E Eis o medo: ”dar certo”.
Viver é como a própria palavra já expressa, duas sílabas, que faladas soam incrivelmente rápido. É ligeiro. E o medo de dar certo, de conseguir viver algo, já me perturba. O problema não é o sofrimento e sim ter felicidade. Não posso me permitir isso, me apegar, me entregar, envolver outras pessoas nisso, pessoas que certamente me importam e que eu sinceramente vou ferir. Não intencionalmente, não! Mas minha instabilidade atrai solidão.
Por mais mórbido que seja, minha cura seria sofrer de uma doença terminal. A morte chegaria de qualquer maneira, tendo ou não uma doença, mas a diferença está no prazo.
Se eu soubesse que meus dias estavam contados eu iria fazer as mais insanas loucuras, dizer as palavras mais imbecis a pessoas mais imbecis ainda. Eu iria vi-ver. Minha linha estaria próxima de ser cortada e eu não gostaria de adormecer com a dúvida do ” E se?".
Porém minha realidade é tomada pelo prazo de vida desconhecido, que resulta numa procrastinação vergonhosa de tudo e qualquer coisa que dependa das minhas decisões. Isso me mutila, consegue encontrar a carne mais pobre que foi posta aos pássaros da morte. Fico presa a uma inanição crônica, de desejos ardentes platônicos e momentos ilusórios que só foram vividos por mim, no meu quarto escuro.
E assim o tempo passa, e por mais cabelos brancos que eu tenha a minha bagagem de vida pode ser comparada a de um feto que nem se quer saiu do útero.
(Gabriela Camargo)
Nenhum comentário:
Postar um comentário