domingo, 3 de novembro de 2013

Velório

(Eu não quero acordar na sarjeta e mendigar minha comida ao primeiro rosto vazio que cruzar a minha frente.)
Foi em uma sexta-feira miserável que minha sentença foi instaurada. Naquela noite, que até então não passava de mais um dia ordinário, senti minha vida escapar pelas minhas entranhas, vi o que jamais sonhei ver, senti o que sempre matei antes de florescer.
Perdi o controle dos meus atos, que embora eram sempre tortos e deformados, nunca deixaram de ser estritamente meticulosos. Mas naquela noite… naquela noite fui traída pela impulsividade, se bem que uma trela de sanidade me assombrava, porém por algum motivo desconhecido, eu banquei de surda e me permiti.
Saltei em direção a imensidão. Que imensidão? Era só um quarto cheio de estranhos com algumas alucinações, mas vá por mim, a imensidão está escondida nas emoções que não vemos. Quer coisa mais ingrata que não ter controle dos seus próprio atos? Que abraçar seus instintos como única forma de respiração? Não há, meu caro, não há.
Se eu fosse dotada de poderes psíquicos, sairia dali, retornaria ao meu mundo estranho, com o meu controle e minha sanidade. Mas, somos pobres almas humanas em corpos alugados. Então tolerei e esperei até que minha alforria desse sinal de vida.
A caminho de casa, meus tremores deram lugar a um questionário absurdo que eu teria que responder e pior, revelar. Eu Não estava sozinha, pois é, eu não estava acompanhada somente pelos meus fantasmas. Uma outra alma condenada me fez companhia naquela noite e o mais louco? Não foi a primeira vez que notei que eu não voltava sozinha para casa.
Alguém gostava da minha companhia e eu gostava da companhia desse alguém. Fui traída pelos meus próprios poros. Eu não estava mais naquele quarto turvo, estava agora na rua, na sarjeta de casa, olhando para um rosto estranho que via a inquietação através dos meus olhos.
Sorria e perguntava se estava tudo bem, com aquele ar de pergunta retórica, pois é claro que eu estava a ponto de explodir. Mas a esperança é a ultima que morre (ou se mata), então não custa ansiar pelo melhor. Só ansiar, pois estava esculpido e escarrado na minha cara que eu estava prestes a vomitar palavras sem sentido e inquietações ridículas!
Falei, falei por horas minha indignação diante do ocorrido. E o que eu ouvi como resposta foram incansáveis desculpas e o reconhecimento do ato impulsivo de outrem. E uma outra coisa, que fez a minha sexta-feira se tornar miserável e não tão ordinária como tantas outras.
Ouvi a preocupação de um indivíduo tão perturbado quanto eu (nem tanto). Tão estagnado de emoção quanto a mim (hipérbole). Fui abordada por uma confissão que me colocava como sujeito paciente. Eu, que em tantas outras vezes não passava de um adjunto adnominal, fui acusada de preocupação de alguém, fui sentenciada a ser o motivo por alguém ficar inquieto, eu fui o motivo dele estar ali. É clichê demais para uma noite só.
Quer prisão perpétua pior que ser algo para alguém? Afinal quando laços são criados, ficamos vulneráveis a todo tipo de doença, ficamos responsáveis pelo bem estar de alguém. É bagagem demais para um mísero corpo alugado carregar. Não posso ficar presa na alfândega, preciso ter liberdade de ir e vir, sem a obrigação de parar no meio do caminho. Eu sou de partida e não de chegada (eu era).
Diante de tamanha avalanche de sensações, o máximo que eu podia fazer era digerir tudo que vivi aquela noite, que se eu pudesse calcular a duração, arriscaria dizer que tudo aquilo que evitei sentir durante toda a minha existência, senti naquelas quatro horas de sexta-feira a noite.
Sem contar que enquanto escrevo essas palavras confusas não tiro da cabeça a sensação dos seus dedos passando no meu rosto e sua fala clichê, dita sussurrada olhando nos meus olhos: “Faça o que fizer, só fique comigo.”
Naquela noite miserável, percebi que se eu não fugir de toda essa insanidade, vou acabar largada, suja, abandonada por mim mesma, em qualquer calçada, mendigando por comida ao primeiro rosto que ver. Pois esses sentimentos, ditos humanos, vão acabar matando minha lucidez e eu vou me desintegrar, até que não reste mais vestígios do que eu fui um dia.
Gabriela Camargo

Um comentário:

  1. Poxa, Gabriela, seus textos me emocionam... possuem uma cadência e um conteúdo que prende e um sentimento de precipício que só na poesia. Sinto um desespero feliz de não conseguir explicar e uma felicidade desesperada de sentir o que sinto pelos seus textos... MUITO BOM!!!!!

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